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Ainda estou aqui

Ainda estou aqui

Depois de tanto tempo e do quanto se falou sobre Ainda estou aqui, fui assistir achando que seria fácil escrever sobre ele depois. Claro, sei qual é a história, gosto da temática, e o mundo inteiro está aclamando o filme e Fernanda Torres. O que poderia dificultar? Pois a dificuldade mora justamente na tentativa de abraçar toda a sua grandeza.

* O filme ganhou Oscar de melhor filme internacional.

Ainda estou aqui é uma obra-prima, uma pérola do cinema, e mais que isso: um filme fundamental, não apenas pelo que ele conta, mas principalmente por como conta.

Para quem não conhece a história, ela é uma adaptação do romance autobiográfico de mesmo nome do escritor Marcelo Rubens Paiva, no qual ele conta como viu a vida de sua família ser destruída após seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, ser preso, torturado e morto pelos militares. A partir dessa tragédia, coube à mãe, Eunice Paiva, juntar os cacos e seguir em frente, tentando manter a vida dos cinco filhos dentro da maior normalidade possível em meio aos escombros do que um dia foi uma família feliz.

Eu sabia de tudo isso ao me sentar na cadeira do cinema, mas, realmente, não estava preparado para a maneira como o diretor Walter Salles e os roteiristas Murilo Hauser e Heitor Lorega contaram a história. Na verdade, o filme até demora a engrenar, pois o que se vê durante mais de meia hora é uma família absolutamente feliz em sua casa de frente para a praia, projetos de uma residência maior, adoção de um cachorro de rua, idas à sorveteria, filha mais velha indo estudar no exterior, recepções para amigos, whisky e receitas de suflê. Nem a truculência de uma blitz policial no início da história foi suficiente para abalar a tranquilidade mostrada em tela.

É claro, no entanto, que tantas cenas felizes foram um artifício muito bem utilizado pelo roteiro, pois quando Rubens Paiva, brilhantemente vivido por Selton Mello, foi levado pelos militares, foi inevitável sentir o golpe como se todos naquela sala de cinema fossemos membros de sua família e soubéssemos que nada mais seria como antes.

Se a tragédia foi brutal em tela, é quase impossível aquilatar o tamanho de seu impacto na vida real; quase porque Fernanda Torres foi estupenda, primorosa e você pode colocar quantos adjetivos positivos quiser neste espaço! Numa história tão dramática seria natural que outras atrizes – e outras personagens – se debulhassem em lágrimas de crocodilo para impactar o público. Não aqui e não Fernanda Torres. Tirando forças de onde nem sabia que tinha, sua Eunice segurou o choro entre os dentes e seguiu adiante, criando seus cinco filhos e refazendo a vida até encontrar um resquício de justiça em um país que permitiu um regime como aquele. Ah, e claro, o que dizer de Fernanda Montenegro, em seu pouco mais de um minuto em cena, sem uma única fala, mas emocionando o mundo apenas com o olhar? Eu sei, eu sei, a Academia deve preferir a Gwyneth Paltrow...

Aliás, falando em avaliações absurdas, no Brasil tem gente criticando o filme por supostamente aliviar na violência ou, principalmente, por falar de uma família branca, de classe média alta e não dos pobres, negros e nordestinos. Ora, meus caros, pensem um pouco: se até mesmo uma família como aquela, branca, influente e com boas condições financeiras, foi destroçada pela ditadura militar, imaginem o que não aconteceu com quem tinha ainda menos chances de defesa! Há coisas que não precisam ser ditas ou mostradas, o que também explica a falta de violência explicita no filme. Muitas vezes o escuro, o silêncio, a dúvida ou a falta de informações podem ser muito assustadores, como mostrado aqui – lembrando que eu também acho Cidade de Deus uma obra-prima.

Por fim, se você ainda não foi, vá ver Ainda estou aqui. Leve os jovens, se tiverem mais de 14 anos! Apenas dois conselhos antes:

1 – Se for atender o celular, deixe pra fazer isso quando estiver vendo um Transformers da vida.

2 – Se você tiver qualquer simpatia pelo regime militar, não vá. Tenha um pouco de respeito pelas memórias de Eunice e Rubens Paiva.

Ficha técnica

Ainda estou aqui

Direção: Walter Salles

Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega

Elenco: Fernanda Torres, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Daniel Dantas, Dan Stulback, Humberto Carrão

7 de novembro de 2024 nos cinemas

2h 15min

Drama histórico

Sinopse

Ainda Estou Aqui é uma adaptação cinematográfica do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que narra a emocionante trajetória de sua mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Ambientada em 1970, a história retrata como a vida de uma mulher comum, casada com um importante político, muda drasticamente após o desaparecimento de seu marido, capturado pelo regime militar.

Forçada a abandonar sua rotina de dona de casa, Eunice (Fernanda Torres/Fernanda Montenegro) se transforma em uma ativista dos direitos humanos, lutando pela verdade sobre o paradeiro de seu marido e enfrentando as consequências brutais da repressão.

O filme explora não apenas o drama pessoal de Eunice, mas também o impacto do regime militar na vida de milhares de famílias brasileiras, destacando o papel das mulheres na resistência. Com uma narrativa profunda e sensível, Ainda Estou Aqui traz à tona questões de perda, coragem e resiliência, enquanto revisita um dos períodos mais sombrios da história do Brasil.

A obra é um tributo à força de Eunice Paiva, que, contra todas as adversidades, se torna uma figura central na luta pelos direitos humanos no país.

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Sobre o Autor

Diego Salomão

Diego Martins Salomão nasceu em São Paulo. Touro com ascendente em escorpião, é um corintiano fanático por futebol, música e filmes do universo geek. Formado em jornalismo pelo Mackenzie, trabalhou como assessor de imprensa, repórter de pesca, redator publicitário e até auxiliar de TI. Atualmente trabalha com revisão de livros e audiobooks, além de palestras e cursos sobre técnicas de redação.