A Substância
Em meio às comemorações copadomundonianas pela emocionante conquista de Fernanda Torres no Globo de Ouro, parece imperativo começar a imaginar que ela possa também trazer o Oscar para casa, o que nos leva ao óbvio questionamento sobre suas concorrentes; a principal delas é a estrela Demi Moore, que faz a personagem central no terror/comédia A Substância, da diretora Coralie Fargeat.
Sem grandes spoilers, a história gira em torno da estrela Elisabeth Sparkle, que, um belo dia, é despedida do programa de aeróbica que apresenta na TV, tendo que ouvir que sua idade havia se tornado um problema. Desiludida com a vida e principalmente com o mundo do entretenimento, ela dirige de volta para casa, quando sofre um acidente e no hospital recebe às escondidas um pen drive explicando que existia uma substância capaz de criar uma versão sua mais jovem, mais bonita e melhor. Relutante a priori, ela acaba cedendo ao canto da sereia da juventude eterna sem esperar, no entanto, pelo horror do que estava por vir.
A tal nova versão era literal e a partir da primeira aplicação da substância os dois corpos desenvolvem uma relação simbiótica, que, sim, deveria manter algum equilíbrio entre eles, o que caiu por terra assim que a versão mais jovem entendeu que poderia sugar mais e mais vida do corpo de sua matriz, transformando um envelhecimento natural em algo horrendo, grotesco e assustador.
Sim, o filme é propositadamente grotesco. Assusta, choca, enoja, faz rir de nervoso e até deprime. O recado é dado sem espaço para que alguém não entenda. Tudo é exagerado, e, nesse aspecto, quem se joga sem medo, para além das protagonistas, de quem já falaremos, é o coadjuvante Dennis Quaid como produtor do programa de TV. Nojento moral e visualmente, ele encarna o machismo e a misoginia com tamanha entrega que sua simples presença em cena incomoda, seja pelas roupas cafonas, falas abjetas, modos à mesa ou – principalmente – o fato de mesmo sendo tão escroto, sentir-se no direito de dizer que uma mulher (linda, aliás) já está ultrapassada.
“Se ele está tão bem, não deveria ser indicado a algum prêmio?”. Pois é, e esse é um ponto interessante! Particularmente, eu gostei do filme. Assim, como gostei de Barbie, Não olhe pra cima e gosto da série de super-heróis The Boys; porém, em todas essas obras vejo a mesma característica: o medo de não ser entendido é tamanho que a caricatura é propositadamente exagerada, tornando-os bobos e de maus gosto para quem já havia assimilado a mensagem.
No entanto, vamos ser sinceros? Se Ryan Gosling foi indicado a premiações por Barbie e a protagonista Margot Robbie não, claramente as pessoas não entenderam a crítica do filme. Aliás, em A Substância este que vos escreve chegou a verbalizar que ficou mais impressionado com a atuação da jovem Margaret Qualley do que com a protagonista (e bem mais velha) Demi Moore. Sim, meus caros, mesmo que Qualley tenha mais minutos em cena e de fato tenha momentos de bastante intensidade na tela (talvez até mais que Moore), eu devo confessar que também caí na armadilha proposta pelo filme ao me atentar à jovem, em detrimento da consagrada atriz. Logo, devo reconhecer que mesmo não sendo meu filme favorito, A Substância foi extraordinariamente competente em sua proposta.

Ficha técnica

A Substância
Direção: Coralie Fargeat
Roteiro: Coralie Fargeat
Elenco: Demi Moore, Margaret Qualley, Dennis Quaid
19 de setembro de 2024 nos cinemas
2h 20min
Terror, drama, comédia
Sinopse
Em A Substância, Elisabeth Sparkle (Demi Moore) é uma celebridade em declínio que enfrenta uma reviravolta inesperada ao ser demitida de seu programa fitness na televisão. Desesperada por um novo começo, ela decide experimentar uma droga do mercado clandestino que promete replicar suas células, criando temporariamente uma versão mais jovem e aprimorada de si mesma.
Agora, a atriz se vê dividida entre suas duas versões (Margaret Qualley), que devem coexistir enquanto navegam pelos desafios da fama e da identidade. "Já sonhou com uma versão melhor de si mesmo? Você. Só que melhor em todos os sentidos. De verdade. Você precisa experimentar este novo produto, A Substância. MUDOU A MINHA VIDA. Ele gera outro você. Um você novo, mais jovem, mais bonito, mais perfeito. E há apenas uma regra: vocês dividem o tempo. Uma semana para você. Uma semana para o novo você. Sete dias para cada um. Um equilíbrio perfeito. Fácil, certo?"